Da série: boas propagandas espanholas

Campanha AMIGO, da operadora de celular Movistar.

Muito engraçado.

Tom Zé

Pensando no post abaixo, sobre as mulheres no governo espanhol, me lembrei do disco "Estudando o pagode: na opereta segrega mulher e amor", do Tom Zé, que é uma opereta sobre discriminação da mulher.

O disco todo é sobre esse tema, da violência de gênero, estética. E tem uma música que gosto muito, que abaixo reproduzo:

Mulher Navio Negreiro

Composição: Tom zé

Mulher – Divino Luxo – Navio Negreiro

O macho pela vida
Se valida
A molestar a mulher
Se diverte.

Apavorada,
Ela, que se péla,
Pouco pára de pé,
E padece.

Quando ele pia, pia, pia,
Pra inibir na mulher o animal,
Talvez eu ria, ria, ria,
Vendo ele transar uma boneca de pau,
Com seu incubado,
Calado, colado, pirado pavor
Do segredo sagrado.

Por isto existe no mundo
Um escravo chamado

Mulher – Divino Luxo – Navio Negreiro
Graal – Puro Cristal – Desespero
Rosa-robô – Cachorrinho – Tesouro,
Ninguém suspeita dor neste ideal,
A dor ninguém suspeita imperial.

Eucaristia – Ascensão – Desgraça,
Filé-mignon – Púbis, Traseiro – Alcatra,
Banca de Revista – Açougue Informal – Plena Praça,
Ninguém suspeita dor neste ideal,
A dor ninguém suspeita imperial.

Mulheres no comando

Depois de tomar posse no cargo de primeiro-ministro, José Luiz Rodrigues Zapatero, o chefe de governo espanhol, tomou uma decisão carregada de simbolísmos em um país abertamente machista, com taxas altíssimas de violência contra a mulher.

Nomeou 9 mulheres e 8 homens para os cargos ministeriais de seu governo, num ato bastante criticado e discutido por todos os meios de comunicação espanhóis. Uns criticam dizendo que o gênero foi colocado acima da competência e outros elogiam dizendo que foi um ato corajoso.

O importante, na minha opinião, é a mescla. Todas elas já provaram ser líderes em seus campos de atuação e preparadas para o cargo. E, além do mais, acho que é muito importante inserir as mulheres em postos os mais diversos, num processo de empoderamento de gênero muito importante, que já devia ter sido feito há mais tempo.

Agora, outro ponto forte de discórdia é a nomeação da Ministra da Defesa. Mulher, grávida e com histórico nacionalista catalão bastante reconhecido e questionado pelos espanhóis. Uns se deleitaram vendo ela tomar posse hoje e dizendo:

- ¡Viva España! ¡Viva el Rey!

Outros ficaram estupefatos ao verem uma "inimiga" tomar conta das armas nacionais.

Foto do primeiro-ministro com as ministras:

Vídeo da Ministra da Defesa, Carme Chácon, grávida de 7 meses, tomando posse no cargo.


Parabéns Zapatero.

Uma boa oportunidade para os espanhóis perceberem que nacionalismos e machismos não levam a nada.

Madrid, Extremadura, Portugal, Andaluzia...

Eu precisarei ver e rever as fotos que tiramos nessa viagem, que fiz com meus pais pela Espanha e por Portugal, para entender, um dia, quem sabe, a emoção disso tudo.

A vida da gente tem uns momentos incríveis, onde nada é maior, nada pode ser mais legal, que nada pode substituir. E, posso dizer-lhes, que um dos meus maiores desejos foi realizado.

Em todas as minhas viagens penso nos meus pais, em compartilhar (verbo infinito) aquilo que vejo com eles. Mas como sei que os olhos da gente são os olhos deles, fico tranquilo.

Eles viveram tudo o que eu já vivi.

E vão ver tudo o que ainda vou deslumbar, pois sei que os fôlegos perdidos são sentidos...e isso é o melhor de tudo.

Só faltou o Fer :(

Mesmo assim, obrigado família. Obrigado amigos. :)

Um pouco do nosso roteiro:

Mérida, Extremadura - Cidade entre Madrid e Portugal, chegamos lá na Sexta Feira Santa.



Depois de Mérida fomos a Évora, em Portugal. Cidade pequena, alentejana, com mercados e igrejas lindas. Comemos um bacalhau a brás delicioso lá :)


Depois de tudo, Lisboa, chegamos pela ponte 25 de Abril, a emoção tomou conta. Como víamos a palavra Paiva por todo lado, nos sentimos ainda mais em casa. Cafés, bacalhaus, praias, praças, Fernando Pessoa, Cabo da Roca, encontro com a família Pantaleão, Sintra...dá pra ver pelas fotos.







Depois veio Andaluzia, sul da Espanha, onde visitamos Sevilha e Granada. Uma mistura riquíssima de espanhol com árabe. Vale muito a pena ir. A herança deixada pelos árabes depois de 777 anos de ocupação ainda é muito forte, séculos depois. A Alhambra, palácio do Califa em Granada, é uma das obras mais incríveis que vi na vida. Gostamos muito de tudo.

Sevilha:





Granada:






De volta a Madri, uma semana de passeios, descobertas e muitos, muitos bons momentos.





Inesquecível!

Silêncio

Todos os dias, ao voltar do mestrado, passo em uma praça que fica nas redondezas do edifício onde moro. É metade do caminho entre minha casa e o metrô. Passo lá a noite, por volta das 21:00, horário em que a família espanhola está reunida para o jantar, o que me deixa praticamente sozinho ao passar por ali.

A praça é bonita, com fontes e muito verde. Recém reformada com recursos da União Européia. Sendo assim, mesmo sendo o caminho mais longo, passo nela todos os dias.

Mas ontem não estava sozinho.

Como todos sabem, na sexta feira passada (07/03), o grupo terrorista basco ETA assassinou um ex-vereador da cidade de Mondragón com três tiros na nuca. Ato covarde, próprio de grupos radicais débeis, que já não conseguem se articular em rede e tentam, a todo custo, ditar a agenda política do país.

Feito isso, a campanha foi cancelada, os últimos comícios suspensos, a população estarrecida. E indignada. Foram todos às urnas no Domingo e ganhou Zapatero, ou seja, não mudou em nada o que as pesquisas já ditavam.

Mas ontem algo mudou, pelo menos em minha estada aqui.

Ao passar pela praça, vi um grupo de umas 30 pessoas, idosos, perfiladas em 4 filas de 8 pessoas, em silêncio, voltados para o coreto. Ninguém os assistia, ventava muito e, como já era tarde, todos já estavam em casa. Mas mesmo assim, esse grupo de pessoas não arredou o pé.

Vi que seguravam uma faixa, branca, grande, na fila da frente. Dei meia volta no grupo para poder ler a faixa, que trazia, em letras garrafais:

GESTO POR LA PAZ!

Confesso que me emocionei, vendo aqueles senhores e senhoras numa segunda-feira fria, em plena praça, em silêncio, perfilados, por uma causa tão nobre, num país onde a disputa nacionalista cega as pessoas e as fazem dispender uma quantidade enorme de energia. Confesso que aquela cena, na calada da noite, vai ficar em minha cabeça para sempre. O silêncio, o gesto, as palavras na faixa, dizendo tudo, pedindo o mínimo, em pleno século XXI.

Estava sem minha câmera, mas faço dessa descrição um instrumento para que todos imaginem a cena que quiserem.

Para determinadas coisas, não necessitamos de registros visuais.

Coisas boas de Madrid

Uma das melhores coisas de Madrid é, sem dúvida, o sistema de transporte.

E, de todos os meios, o mais impressionante é o metrô, que foi fundado em 1919, pelo rei Alfonso XII e, na década de 1930, com a Guerra Civil Espanhola, suas estações foram transformadas em abrigos aéreos. Na década de 70 recebeu massivos investimentos por causa do aumento vertiginoso da população urbana e ainda mais depois da entrada do país na União Européia, quando começou a receber recursos advindos dos fundos europeus para a infra-estrutura. É interessante andar pelas estações, várias delas novas, e perceber o tanto que esse país desenvolveu nos últimos anos.

O metrô possui 12 linhas (o de São Paulo, cidade 6 vezes maior possui 5) e além delas existe um sistema de ônibus respeitável, que não enche as ruas, um sistema de metrô de superfície nos bairros novos e os trens suburbanos, chamados de Cercanías, que é uma espécie de metrô mais veloz e com menos estações.

Além disso, o preço é muito bom. Paga-se o mesmo preço do de São Paulo, ou seja, 1 euro. E, além disso existem passes para todos os gostos, reduzindo o custo em mais de 40% e integrando todos os meios.

Assim, pode-se ir do centro ao aeroporto em 20 minutos. E olha que o aeroporto fica em Barajas, uma cidadezinha nas redondezas de Madrid.

Uma cidade que tem um bom sistema de transporte tem cidadãos mais felizes e posso dizer que aprendi isso em Madrid.

Ainda não está seguro se locomover com bicicletas...mas mudar isso já está nos planos do poder público.

Abaixo, o novo comercial do Metro de Madrid.

Nada é definitivo

Reproduzo, abaixo, artigo de Rubens Ricupero acerca da qualidade das intituiçoes espanholas e o que isso representa para nós, brasileiros, desencantados com a fraqueza e a perene falta de efetividade da maioria de nossas instituiçoes. Para quem acredita no "a América Latina nunca vai pra frente por causa da herança ibérica", uma crítica sutil.

Abs

Fred

RUBENS RICUPERO

Nada é definitivo


Cresce a sensação de que a nova Espanha deverá provar que as instituições têm solidez para resistir aos ventos contrários

A ESPANHA do último quarto de século tem sido a grande esperança dos latino-americanos desanimados com seu persistente fracasso institucional desde a independência. Durante muito tempo, atribuía-se ao fatalismo do modelo herdado de espanhóis (e lusos) a incapacidade de construir instituições capazes de garantir estabilidade política com progresso econômico e igualitarismo social nos países ibéricos.
Muitos dos pensadores e políticos latino-americanos iam buscar no patrimonialismo, na falta de liberdades locais e tradição democrática da península a raiz dos nossos próprios vícios. Esses adquiriam, assim, o caráter de doença hereditária e incurável, como quase todas as deformações carregadas pelo DNA.
A prolongada decadência em que mergulharam as ex-metrópoles era a confirmação viva de que uma espécie de enfermidade degenerativa acometia os dois únicos países da Europa ocidental que haviam "derrotado" a Reforma religiosa e a Revolução Francesa, aferrando-se à Inquisição até bem entrado o século 19. As ditaduras de Salazar e Franco, a sanguinária Guerra Civil Espanhola, o espírito retrógrado perceptível na atmosfera de Lisboa e Madri até o início dos anos 1960 só reforçavam a impressão de irremediável declínio.
O êxito da transição democrática e européia de Portugal e Espanha, sobretudo dessa última, e a sabedoria do compromisso histórico que permitiu o Pacto de Moncloa no plano político e o milagre econômico espanhol vieram demonstrar que, até no berço da hispanidade, era possível romper a seqüência de catástrofes institucionais e edificar democracia moderna e dinâmica.
O progresso foi realmente tão rápido que, após dez anos de crescimento a 3,7% anuais, a Espanha ultrapassou a Itália em riqueza per capita, ocupando o sexto lugar da União Européia. Um dos "slogans" eleitorais do primeiro-ministro Zapatero era a promessa de arrebatar da França a quinta posição. De repente, contudo, a situação começa a dar sinais de esgotamento. Como nos Estados Unidos, confiou-se demais na bolha imobiliária, que vinha sustentando a expansão, graças à melhoria do nível de vida e aos imigrantes (700 mil por ano, desde 2000). O estouro da bolha passou a frear o crescimento e o consumo, apesar de inflação que se mantém em nível superior ao do resto da Europa.
O velho fantasma do confronto entre direita e esquerda volta a reaparecer, do mesmo modo que as divisões com a Igreja em matéria de moral e família. O país tem dificuldade em lidar com o passado e a Guerra Civil, com a anistia e as vítimas. Não conseguiu aprovar nem uma letra inócua para o Hino Nacional, que continua mudo. O fiasco das negociações com o terrorismo basco deixou o governo em posição de fraqueza diante de uma direita truculenta.
Na hora do triunfalismo, esquecia-se que, nos anos 1990, a ajuda européia chegou a representar 1,7% do PIB (Produto Interno Bruto) da Espanha, o que, além das instituições, ajuda a explicar o milagre. Até 2013, ela terá ainda a receber 31 bilhões, mas isso agora é apenas 0,4% da economia. Na véspera da eleição do dia 9, cresce a sensação de que a nova Espanha deverá provar no teste da adversidade que suas instituições possuem, de fato, solidez para resistir aos ventos contrários.


RUBENS RICUPERO , 70, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, no caderno Dinheiro, da Folha de SP.