Vale Tudo - Tim Maia


Já dizia o gordinho mais charmoso da Tijuca: Leia o livro!

Nova bipolaridade ?

A despeito da cirurgica e estratégicamente perfeita intervenção russa na Geórgia, depois de uma mal sucedida "invasão" georgiana nas regiões separatistas da Ossétia do Sul e Abkhazia, não acredito que esteja se formando uma Rússia capaz de contrabalançar a estrutura de poder do mundo de hoje.

Depois do fim da Guerra Fria, a ex-URSS tenta conduzir seus esforços no sentido de voltar ao protagonismo que até então exercia no cenário político-militar mundial. Com a alta dos preços das commodities, um investimento maciço na reestruturação de seu comércio internacional, um parque tecnológico-militar em grande avanço (com compradores em todo o mundo, como Venezuela, China, garantindo a capacidade de investimento do setor) e um presidente afeito à idéia da Grande Rússia, aquele país tem se saído bem nessa empreitada.

Mas daí afirmar que a Rússia esteja revertendo a apolaridade de poder mundial, na minha opinião, com vários atores representando certos cenários de poder, inclusive os EUA, que vem perdendo poder relativo e não soube se firmar como poder único pós Guerra Fria, é pura precipitação.

Acredito que a ordem apolar, onde a sociedade global não sofra a influência de outros países como sofrera na Guerra Fria, onde ditadores eram impostos, planos comerciais e econômicos empurrados goela abaixo, Guerras Civis financiadas e estimuladas, seja, de certa forma, uma cenário irreversível.

Explico.

Não há força motriz maior que a interdependência que existe no mundo que vivemos, onde atingimos escalas comerciais inimaginadas, fluxos de informações crescentes, fluxos financeiros, imigrações, turismo, entre outros fenômenos, que elevou a sociedade global a um patamar onde outros agentes, que não apenas os Estados, tenham força e interesses a defender. Aí incluo as ONG´s, países emergentes, fundos soberanos, culturas, as transnacionais, os bancos, organizações terroristas, partidos políticos, grandes cidades, entre outros. É a concentração de muito poder nas mãos de muitos. O poder hoje não é apenas estatal.

É, segundo os teóricos do Construtivismo nas Relações Internacionais, a construção social da política internacional, onde as idéias e normas exercem influência na formação de realidades e interesses. E afirmo, por conta própria, que interesses podem ser, sim, idéias postas e passíveis de defesa e influência da atuação estatal.

No entanto, o Construtivismo não defende que as mudanças sistêmicas, como as que estamos discutindo agora, estejam fora do alcance do Estado, como estou defendendo.

Aí parto para o argumento precípuo: atualmente, nenhum Estado conseguirá alterar o sistema que julgo ser apolar atuando como a Russía atuou, defendendo um interesse regional, contra um país frágil, desesperado por reconhecimento ocidental. Acredito que essa mudança acontecerá quando algum ator alcançar um estágio de poder capaz de mudar idéias e normas, o que é outra história.

Alcançamos um estágio de interdependência, conexão e compartilhamento tão fantásticos que só aceitaríamos a troca de influência e poder entre um estrategista militar por um burocrata afeito às normas e idéias no dia em que a consolidação das benesses da interdependência e do compartilhamente de informação forem prioridades.

Duvido que este dia esteja longe.

*Recomendo esse artigo de Richard Haass, sobre o mundo apolar, em inglês. Clique aqui.

Nunca é tarde.

"Depois de 53 anos, sete meses e onze dias e noites, meu coração finalmente foi preenchido. E eu descobri, para minha alegria, que é a vida, e não a morte, que não tem limites."

Gabriel García Marquez - O amor nos tempos do Cólera

Deixa a galera fumar em paz, Fredão!

Ok, mas que a foto é criativa.

Ah, isso é!

Saiu na Folha

TOMARA QUE SEJA LINDA

CÉSAR BENJAMIN

Agora que os Jogos começaram, torço para que o lixo ideológico se retraia, para que possamos prestar atenção nos atletas

É DEVERAS impressionante o lixo ideológico que a imprensa tem produzido ao cobrir a Olimpíada. Em geral, os repórteres buscam sempre os ângulos mais negativos, mesmo à custa de adentrar o ridículo. Vi coisas incríveis.
O locutor ressalta o caráter repressivo do regime chinês, enquanto as imagens mostram, como prova disso, um grupo de guardas de trânsito e câmeras de televisão que monitoram avenidas. O locutor fala do controle do Partido Comunista sobre as pessoas, enquanto na tela aparecem torcedores que preparam uma coreografia. Manifestações com menos de cinco indivíduos são tratadas como acontecimentos épicos. Se houver um pouco maiores, é a prova de que o povo está contra o governo. Se não houver, é a prova de que a repressão é terrível.
Ideologias não se subordinam a fatos. Elas criam fatos e se realimentam de suas criações. Formam sistemas fechados. Por isso, a China não tem saída: aconteça o que acontecer, faça o que fizer, é culpada. Se fizer o bem, é por dissimulação. Ela é má.
Atletas americanos desembarcaram em Pequim usando máscaras contra a poluição, mas tiveram azar.
Nesse dia, excepcionalmente, o ar na capital chinesa estava mais limpo que o de Nova York, de onde haviam partido. Apoiamos essas grosserias como se fossem gestos nobres.
George W. Bush, que praticamente não havia saído do Texas até se tornar presidente dos Estados Unidos, acredita que os chineses só não praticam maciçamente o cristianismo porque o governo deles não deixa. Ignora uma civilização que tem 7.000 anos de história. Ela construiu uma sofisticada visão do homem, do mundo e do cosmo, nem melhor nem pior do que a nossa, mas diferente, e sem a qual a existência humana seria muito mais pobre.
Repórteres monotemáticos escrevem todos os dias sobre falta de liberdade de expressão, carregando nas tintas, para cumprir a pauta que receberam dos chefes. Se não a cumprirem, serão demitidos. Defendem, pois, uma liberdade que eles mesmos não têm. "Os chineses estão perplexos com tantas manifestações contra o seu regime em todo o mundo", escreveu um deles, sem se importar com o fato de que em nenhum lugar tem havido nenhuma manifestação relevante.
Perplexos estamos nós, pois a China não nos obedece mais. Sua economia será maior que a dos Estados Unidos em 15 anos. Dos 200 milhões de pessoas que deixaram a pobreza na última década, no mundo, 150 milhões são chinesas. O Estado é forte, mas isso não quer dizer que seja ilegítimo. Se ainda fosse fraco, como já foi, lá continuaria a ser o lugar dos negócios da China.
Tamanhas mutações e tão complexo processo de desenvolvimento, em curto período, em uma sociedade que há pouco era paupérrima, com 1,3 bilhão de pessoas, não se fazem sem grandes contradições e problemas, que ninguém desconhece, muito menos os próprios chineses. Onde não foi assim?
As civilizações ocidentais, como se sabe, só usam a violência em benefício das vítimas. Reduzimos os índios do Novo Mundo à servidão, mas foi para cristianizá-los. Escravizamos os africanos, mas foi para discipliná-los pelo trabalho. Estamos massacrando os iraquianos, mas é para ensiná-los a ser livres. Nossa próxima missão, pelo que vejo, será libertar os chineses de si mesmos.
O problema é que eles são muitos.
Estão cada vez mais fortes. E não desejam deixar de ser o que são. Isso nos assusta. O resto é empulhação.
Agora que os Jogos começaram, torço para que o lixo ideológico se retraia, para que finalmente possamos prestar atenção nos atletas de todo o mundo. A festa lhes pertence.
Tomara que seja linda.

CESAR BENJAMIN , 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de "Bom Combate" (Contraponto, 2006).

Chico Ciência



Compartilho com vocês um depoimento do Gilberto Gil sobre um dos maiores talentos da música brasileira que, em apenas 3 anos, transformou uma cena músical local em uma das mais fervilhantes cenas culturais do mundo pós-tropicalismo, o manguebeat (ou manguebit para os tecnológicos).

Firmado no mangue de Recife, Chico Science levou os ritmos regionais e a ficção científica a um limite belíssimo de arte despropositada, radiante, com um pé enfiado na lama e os ouvidos e mentes ligados nas tendências contemporâneas. Pensou localmente, agiu globalmente e localmente.

Sou fã de carteirinha, dele e de toda a galera que o acompanhou. Não me lembro de ter passado um mês sem escutá-los, desde que os ouvi pela primeira vez, em um clipe na MTV, vestidos de maracatu e com os corpos sujos de lama dizendo: "um passo a frente e você ja não está mais no mesmo lugar."

Eis o depoimento:

“Dez anos sem a presença dele... faz muita falta. Se estivesse entre nós, provavelmente estaria hoje levando avante o seu trabalho extraordinário que ele começou com o seu mundo Manguebeat lá em Pernambuco, retomando, reprocessando, redinamizando, requalificando aspectos da música popular, da vida popular, da cultura popular de Pernambuco.

Fazendo isso tudo com um gosto extraordinário pela inovação e pela renovação, pelo aporte de novas possibilidades tecnológicas de linguagem, da capacidade de leitura da realidade, outros instrumentos novos, outras ferramentas que ele trouxe para trabalhar. Um talento extraordinário em pouco tempo de vida e de trabalho deu a Pernambuco uma possibilidade enorme de requalificação da presença pernambucana na vida musical brasileira e trouxe, sem dúvida, elementos importantíssimos para a renovação da fala musical brasileira, do modo de dizer e do modo de se expressar musicalmente no Brasil.

Eu tive a oportunidade de estar com Chico aí no Recife, muitas vezes aqui no Sul, no Rio de Janeiro. Tive com ele em Nova Iorque em um programa memorável, uma apresentação conjunta que fizemos no Central Park. Gravei com ele. Tenho uma lembrança extraordinariamente fresca da presença dele entre nós. Presença que está aí até hoje, que se desdobrou. E não é à toa, não é por outra razão que a força extraordinária do empenho dele, que o Manguebeat vingou, que outras manifestações do mesmo gênero, do mesmo quilate, também vingaram em Pernambuco e em outros lugares.

Na verdade, a gente fala de um período contemporâneo da música popular brasileira. Chico é um dos grandes promotores dessa renovação, dessa efetivação de um novo tempo, de um novo período musical brasileiro. No mais, saudades.”

Gilberto Gil

Clipe de Chico com o Gil:


Cadê Roger, Cadê Roger, Cadê Roger, Ô

Bravo Gil!



Eu vou sentir saudades do Gil.

O político que, contra a opiniñao da maioria de seus fãs, botou a mão na massa e tentou mudar/influir em uma agenda que afeta a todos, a da Cultura.

Foi contra aqueles que dizem que sempre deve-se botar a "mão na merda" para fazer algo de bom. Foi lá e fez, ao contrário dos resmungões que assistem as oportunidades de influir passarem pela janela só por que possuem "mãos limpas".

Quem disse que pra fazer projetos como o Pontos de Cultura, ampliar a participação das estatais no patrocínio cultural, fazer das novas tecnologias potenciais receptoras de patrocínio, fazer dos games um ponto cultural, democratizar o acesso a cultura, precisa-se jogar do lado de lá, o lado dos maus?

A experiência pessoal do Gil foi totalmente aberta, contra estereótipos, coisa de artista visionário, que previlegiou a experiência a viver e a oportunidade de se fazer.

Ele cresceu, participou de discussões importantes em fóruns os mais diversos, trouxe a questão dos resultados à área cultural, discutiu a importância econômica das indústrias criativas, elevou a culinária regional ao nível de bem cultural, levou o Brasil ao mundo. Meu ministro de terno e dread locks, que orgulho!

E ainda fez um som com o Kofi Annan, tocando "Toda menina baiana" na Assembléia Geral da ONU.

Ainda bem que todos temos opções.

Obrigado, Gil!

"Gosto da idéia do serviço desinteressado, que talvez venha da minha relação com o mundo religioso, com a idéia de servir ao próximo”

“Feijoada é cultura, acarajé é cultura, o queijo roquefort, para os franceses, é cultura. Cultura é o grande símbolo da relação dos homens com a vida”